Entrevista: A importância do Teste do Pezinho

Em entrevista ao NS, endocrinologista membro da SBEM-SP fala sobre a importância da realização do Teste do Pezinho, papel do Estado na garantia deste direito e conscientização

Por Alice Galvão, de Goiânia

teste do pezinhoHá 41 anos, em 1976, o laboratório da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de São Paulo iniciou no Brasil a realização do Teste do Pezinho. Na época conhecido por “Screening Neonatal”, inicialmente, o exame detectava fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito. Em 1990, a Lei nº 8.069, de 13 de junho, tornou obrigatório o teste em todo o território nacional, sendo oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a partir da implantação do Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), do Ministério da Saúde.

Atualmente, o exame consegue triar cerca de 40 doenças, mas a população só tem acesso gratuito a uma pequna parte desta triagem, o chamado teste básico, que detecta seis doenças, sendo que duas delas são obrigatórias em todos os Estados (fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito) e as demais, variam de acordo com a localidade (Anemia falciforme, Hiperplasia adrenal congênita, Fibrose cística e Deficiência de biotinidase).

No mês em que se comemora o Dia Nacional do Teste do Pezinho (06/06), entrevistamos a Dra. Tânia Bachega, endocrinologista e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia da Regional São Paulo (SBEM-SP) sobre a importância da realização do Teste do Pezinho nos bebês que tem entre 3 e 7 meses de vida, o papel do Estado na garantia desde direito, a criação da Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal e a conscientização da população do país quanto à necessidade de se fazer o exame. Confira:

NS – Por que é ideal realizar o teste do pezinho entre o 3º e 7º dias de vida do bebê?

Tânia Bachega – O Teste do Pezinho tem como objetivo diagnosticar precocemente, enquanto o bebê ainda não tem sintomas, doenças que sem tratamento podem causar complicações muito graves, tais como, o hipotireoidismo e a fenilcetonúria. Estas patologias podem causar retardo mental e o seu diagnóstico precoce com a instituição do tratamento antes de 30 dias de vida evitam esta complicação.

NS – Já que o teste é direito das crianças, dever do Estado e é capaz de identificar cerca de 40 doenças, como a SBEM avalia o fato de o SUS não oferecer a versão completa para que todas as doenças sejam precocemente identificadas e tratadas?

Tânia Bachega – O teste do pezinho tem como objetivo diagnosticar doenças que em fases iniciais são aparentemente assintomáticas, o que dificulta o seu diagnóstico por meios clínicos, bem como doenças que são frequentes numa determinada população. São estes, portanto, os critérios de inclusão de uma doença no teste do pezinho. No programa público de saúde, quando uma doença é introduzida no teste do pezinho, o Estado precisa fornecer não só o teste diagnóstico como também as medicações e uma rede referenciada de profissionais especializados. Em 2011 duas doenças genéticas muito frequentes na nossa população foram introduzidas no Programa Nacional do Teste do Pezinho, a deficiência da 21-hidroxilase e a deficiência da biotinidase. A primeira doença causa morte no período neonatal por desidratação grave e a segunda um quadro de convulsões, déficits auditivos, visuais etc. Sabemos que o Programa Nacional de Triagem Neonatal pretende dar continuidade na ampliação de doenças investigadas no Teste do Pezinho no SUS.

NS – Como se deu a criação da Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal e qual o papel da SBEM nas atividades da organização?

Tânia Bachega – A Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal (SBTN) foi criada por profissionais da saúde, envolvidos nas diferentes etapas de Triagem Neonatal, buscando a difusão de conhecimento, aprimoramento técnico/científico dos profissionais, com a organização de congressos locais e incentivo à pesquisa. Neste momento, a SBTN passa por uma reformulação, a fim de aumentar o seu dinamismo, e tem convidado para contribuírem na sua direção profissionais de diferentes sociedades médicas, tais como membros da SBEM, da qual sou a representante.

NS – Na sua opinião, a população brasileira está consciente da importância do Teste do Pezinho, ou ainda precisamos avançar?

Tânia Bachega – O teste do pezinho ainda é pouco conhecido pela nossa população, muitos confundem a impressão digital do pé (que serve para a sua identificação no berçário) com o exame do teste do pezinho. Um teste do pezinho positivo é um exame suspeito, não comprova o diagnóstico da doença. O segundo passo é a necessidade de se convocar o bebê, rapidamente, para um segundo tipo de exame mais específico, que confirmará ou afastará o diagnóstico. Para que o bebê seja localizado, nestas situações, é importante que os pais informem corretamente o endereço quando a gestante se interna na maternidade para o parto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *