Pediatria e dermatologia no diagnóstico de alergia alimentar

Em entrevista exclusiva ao NS, durante a 78ª Jornada Goiana de Dermatologia, a gastropediatra Dra. Mariana Di Paula Rodrigues falou sobre a importância do diálogo entre as especialidades

Por Alice Galvão, de Goiânia/GO

A interdisciplinaridade marcou presença na 78ª edição da Jornada Goiana de Dermatologia em diferentes momentos. Com o tema “Intolerância ao glúten e alergia alimentar na infância. O que o dermatologista precisa saber” a Dra. Mariana Di Paula Rodrigues, médica gastropediatra, membro da Sociedade Goiana de Pediatria, conversou com os dermatologistas sobre os sintomas cutâneos característicos das alergias e intolerâncias alimentares infantis.

Em entrevista exclusiva ao NS, a médica deu mais detalhes da relação entre as especialidades. “As alergias alimentares e as manifestações da intolerância ao glúten muitas vezes têm manifestações dermatológicas”, relatou a médica.

Além dos sintomas clássicos, como diarreia, vômitos ou insuficiência do crescimento, a médica citou casos em que o que mais chama a atenção dos pais são as lesões dermatológicas, como dermatites atópicas e angioedemas, nas reações alérgicas mais graves.

“É interessante introduzir estes temas aqui na Jornada, porque às vezes o paciente chega primeiro para o dermatologista. Neste momento, é ele precisa estar atento ao fato de que a lesão cutânea pode estar associada a uma alergia alimentar”, ponderou Dra. Mariana.

Sobre as dificuldades de diagnóstico e relação entre lesão na pele e alergia alimentar, a especialista explicou que existem dois tipos de reações alérgicas: a IgE mediada, que é quando o organismo já teve um primeiro contato com aquele alimento e produziu a imunoglobina e a IgE não mediada, quando não houve este contato.

No primeiro caso, a reação é mais exacerbada. “O exemplo mais famoso disso talvez seja a reação ao consumo de camarão. A pessoa pode comer pela primeira vez e não sentir nada, mas da segunda, aparece um leve prurido (coceira) na garganta. O que aconteceu neste caso foi que no primeiro contato com a proteína do alimento o corpo foi sensibilizado e produziu o IgE para a proteína do camarão. No segundo ou no terceiro contato, o paciente pode desenvolver alergia”, ela explicou. Daí em diante, os sintomas tendem a ser progressivos. Então, em uma terceira vez, pode ser que já apareça o rash cutâneo (ou exantema – erupções avermelhadas na pele), ou angioedema (inchaço), associado a falta de ar e, em casos mais graves, podendo chegar até à anafilaxia (choque anafilático). Muitas destas reações mais graves costumam estar associadas às manifestações cutâneas.

No segundo caso, das IgEs não mediadas, as reações são mais tardias. “Na alergia à proteína do leite de vaca, por exemplo, a criança pode ter contato com a substância por meses e não apresentar sintomas, e aí, ao longo do tempo começa a aparecer a diarreia, a insuficiência do crescimento, os vômitos e, algumas vezes, podem aparecer também sintomas cutâneos. Talvez não tão fortes quanto na IgE mediada”, relatou Dra. Mariana. Nestes casos, com o tratamento adequado, ela revela que, além da melhora no estado geral da criança, as mães começam a relatar melhora significativa também na pele.

A médica considera que os dermatologistas estão bem informados e já desconfiam dos sintomas que caracterizam a alergia alimentar, tanto para as IgEs mediadas, quanto para as não mediadas. “Quando o caso é de IgE mediada, a identificação é mais rápida e, às vezes, a própria mãe do paciente consegue identificar a associação entre os alimentos e os sintomas. Mas no caso das IgEs não mediadas, como existem muitos sintomas gastrointestinais, às vezes os dermatologistas nos procuram para fechar o diagnóstico, ou instituir o tratamento, pois pode haver necessidade de fórmulas próprias e testes. Mesmo assim, os dermatologistas já costumam fazer os pré-testes”, explicou a gastropediatra.

Prevenção

De acordo com a Dra. Mariana a Sociedade Brasileira de Pediatria e suas regionais, têm lutado pela valorização da categoria. “Nós passamos por um período, nos últimos anos, de desvalorização da profissão e isso vem melhorando gradualmente”, ela relatou, fazendo um alerta sobre a necessidade de realização das consultas pediátricas de rotina. “Alguns pais só levavam seus filhos ao médico na hora do problema. Mas você tem que levar o seu filho saudável, para ele (o médico) acompanhar o desenvolvimento da criança, o ganho de peso. Quanto mais cedo se descobre uma anormalidade, menos a criança perde no seu desenvolvimento e mais ela ganha em qualidade de vida”, revelou.

A médica mostrou preocupação também com os casos de pais que só levam as crianças ao pediatra nos primeiros meses de vida e reforçou a importância de deste acompanhamento até pelo menos os dois anos de idade. “Às vezes a criança não perde peso, mas deixa de ganhar. Isso a mão nem sempre consegue detectar, mas é preocupante e pode ser um sinal de alergia alimentar. Por isso é necessário o acompanhamento pediátrico”, ela insistiu.

Segundo ela, a Sociedade têm trabalhado nesta conscientização, levando em consideração que o metabolismo e o desenvolvimento da criança são acelerados, portanto, alguns meses de atraso no tratamento de uma patologia podem fazer muita diferença e trazer a esta criança muitos prejuízos futuros.

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